Quero escrever algo relacionado ao feminismo desde que li uma reportagem da Deborah Secco na Contigo na qual ela diz: ”Mulheres sensuais são mulheres fortes e eu não me sinto assim. Sou mulherzinha, gosto de ficar em casa, cozinhar, servir, agradar. Eu gosto de ser pega no colo, de ganhar um carinho. Não sou supermulher. Acho péssimo a igualdade (entre os sexos). A gente só saiu perdendo, ficou sobrecarregada. Botar uma mesa, arrumar uma casa e fazer compras é muito importante para mim.”
Uau, só faltou falar que não gosta de sexo, para o estereótipo de mulherzinha ficar completo.
Na época fiquei com vontade de escrever algo, mas por estar numa fase mais introvertida e sem vontade de escrever, acabei deixando passar. A chamada para a tal entrevista saiu na capa do UOL, o que significa que esse monte de abobrinhas teve grande alcance. Repudio esse tipo de afirmação porque:
1º A Deborah deve ser leitora assídua da revista Amélia, que ilustra este post. Para mim parece que ela está confundindo as coisas, uma mulher pode muito bem ser forte e ao mesmo tempo delicada e feminina. E que eu saiba, toda mulher gosta de carinho e de ser pega no colo. Isso não é incompatível com ser feminista.
2º Nenhuma de nós é supermulher, por isso mesmo a implantação da igualdade entre os sexos – que ainda não é plena – é importante. Sabe, querida Deborah, se seu marido chega em casa cansado do trabalho, aposto que você também chega, e porque só a mulher deve preparar a janta?
Eu e meu namorado, o Faber, costumamos passar todos os sábados juntos e fazemos assim: uma vez eu preparo o almoço (e isso não faz menos feminista), de outra vez ele cozinha (e isso não o faz menos homem), às vezes almoçamos fora e nossa relação vai muito bem, obrigada.
3º Como disse a Gabi do blog Gente, foi horrível: “Nossa, que coisa mais linda ela querer ser Amélia. O sonho dela era ficar trancada dentro de casa, lavando e passando roupa do marido: ‘Sou mulherzinha, gosto de servir agradar’, fazendo tricô e trocando receitas com as amigas quando o esposo permitisse“. (grifo meu) “Milhões de mulheres lutaram para poder votar, mas ela quer desigualdade. Ainda hoje, muitas executivas são infinitas vezes mais competentes que homens que ocupam o mesmo cargo e ganham menos. E ela acha PÉSSIMO essa igualdade que ainda nem existe”.
As brasileiras hoje têm mais escolaridade que os homens, mas só 11% dos cargos executivos das 500 maiores empresas brasileiras estão ocupados por mulheres, segundo pesquisa do Instituto Ethos. Pior é a diferença salarial. Se a mulher tem três anos de escolaridade, ganha 82% do que os homens ganham. Se tem 15 anos ou mais de estudo, tem que se contentar com 56%.
4º Estamos sobrecarregadas justamente porque a igualdade ainda NÃO existe. Porque um dos motivos da ascensão do movimento feminista não foi nos tornar supermulher nem competir com os homens para ver quem é mais macho, mas sim ter direitos e obrigações iguais.
Vim de uma criação machista, moro com meu irmão e é um saco ter que lavar as louças quase todo dia, porque se não lavar, periga ele deixar acumular por 3 dias na pia e achar que tá tudo bem. Além disso, sou eu 99% das vezes que faço faxina, que lavo o banheiro, senão o apto fica imundo. Nas vezes que ele lava tenho que ficar reclamando e insistindo, da última vez falei:”mas sou sempre eu que lavo? Tenho pena da sua futura esposa, você não vai ajudar não?”
5º Ela realmente tem um namorado maravilhoso, que faz valer todos esses sacrifícios, pois ela declarou no programa da Ana Maria Braga que ele sempre diz: “se você engodar, pode esquecer o casamento”. Nossa, isso que é amor [/ironia]. Deve ser por isso que ela está um palito, não é mais Deborah Secco é Deborah Secca. Também um mulher com tais pensamentos sexistas só pode ter um namorado machista e superficial mesmo.
Mas se na época eu não falei nada, a Secca falou e disse algo talvez pior, ao se convidada para ser madrinha de casamento de Juliana Paes, disse: ” o papel da madrinha não é só o de subir bonita no altar. “Sou antifeminista.Vou ficar no pé dela para ser fiel. Acho que mulher tem que saber o que tem para o almoço e, mesmo cansada, ir jantar com o cara. Em troca, eles levam o carro para consertar.”
Por que me parece pior? Porque quer inferir no casamento da amiga e como disse a Cynthia do blog Cynthia Semíramis “cada casal tem suas próprias formas de organização e distribuição de tarefas”. Eu completo dizendo: que madrinha mala!
E outra: é muito fácil ser anti-feminista quando se almoça e janta fora todos os dias ou quando se tem empregada pra fazer a comida, até porque a beldade já disse que não sabe cozinhar. Queria ver se ela ia ter o mesmo pensamento, se fosse dona de casa.
Ou se além de trabalhar fora ainda tivesse que lavar, passar, cozinhar e ainda criar os filhos sozinha, realidade de milhões de mulheres no Brasil. Além de machismo, é um pensamento elitista. Ponha os pés pra fora da sua redoma de vidro de Classe A e veja a realidade, Deborah.
Para completar, essa semana no blog Não 1 Não 2, li um artigo de outra mulher se dizendo antifeminista: “Eu digo sempre que odeio aquela ‘FDP’ que queimou o soutien. Ela nos deu independência para correr atrás de sonhos, carreira, abrir mão de ter filhos, abrir mão da feminilidade… em troca de quê? De nada.”
No texto, a autora também confunde feminismo com falta de feminilidade. Só um recado: colega, você não precisa abrir mão de nada disso, e você pode ser dona de casa, se quiser. E se tiver um marido que ganhe muito bem, porque hoje em dia, com marido e mulher trabalhando o orçamento anda apertado, imagine só um sustentando a casa.
Parece que quem faz o discurso do antifeminismo não se dá conta que ser anti-feminista é ser machista. E ser machista é ser contra: a criminalização do estupro e da violência contra a mulher, a proibição do homicídio para “lavar a honra” do marido; o direito de as mulheres votarem e serem votadas; o direito de termos uma carreira (embora ainda tenhamos remuneração menor, no mesmo cargo), o direito de não termos um papel definido para o resto da vida – como ser obrigatoriamente mãe e dona de casa, o direito de divisão das tarefas domésticas, entre outros.
Então, homens e mulheres que lerem este artigo, vamos ajudar a implementar todos esses direitos?
Sou feminista e não sou feia, chata, boba, mal amada e lésbica. Abaixo o machismo, a homofobia, os preconceitos e estereótipos.
Lila